O Climax das Quinze Horas

18:10 Lauana Buana Fidêncio 0 Comments




Enquanto batia à máquina, Doralice, a delícia bem comportada do departamento, realizava lenta e docemente a cena em que matava Carlo, golpe a golpe...

Carlo, o inadjetivável pesar dos pesares de Doralice. Carlo, o homem que rasgara seu pequeno coração de alto a baixo, como o véu do Templo, para sempre fendido pela perfídia de um homem.

Com as próprias mãos, suspirou Doralice, enquanto sentia uma calma morna irradiar-lhe do peito para o resto do corpo. Enquanto vislumbrava Carlo a engasgar em vermelho morte, enquanto quase ouvia o vivo estertor sob o peso, inesperadamente grave, do seu corpo de gazela macia.

Doralice, ali a quebrar uma traqueia e a reivindicar, com mãos trêmulas, o fim duma existência que a empoçava em estáticas mágoas. Doralice, a banhar-se na paz sanguínea da vendeta mais clássica. Doralice, a lamber o sangue morto do seu algoz em delírio coroado de gritos bestiais.

Doralice __ aquela cujos crimes imaginados na pasmaceira das 14h45, em pleno expediente, levariam ao mais aferrado grau de periculosidade __ calmamente alisou o cabelo violentamente preso, de onde uma mecha havia escapado para correr-lhe por sobre os olhos brilhantes.

Doralice, a que suspirou profundamente plena antes de encaminhar para Doutor Augusto o memorando. Doralice, a que delicadamente dirigiu-se à cozinha, onde serviu-se do café mais escuro de sua vida.


Doralice a que, de xícara em punho, a mover sua pequena colher no sentido anti-horário, foi interrompida pela voz de Carlo, protocolar e fria, a lhe dirigir a acintosa trivialidade de um boa tarde, da porta da cozinha...






0 comentários: