Coisa de Somenos V

03:08 Lauana Buana Fidêncio 0 Comments



Toda essa transcendência. Todo esse trespasse fulgurante. Uma revelação em cada molécula, em cada esquina, em cada esbarrão ou gota de orvalho perdida entre os arandos. De tanta luz que havia, Ana acabava por sentir-se dentro de um quarto, nu de sombras ou almofadas. A prisão do branco haveria de ser sempre mais escura.

Ana pressentia que uma verdade sobre a vida trazia em seu bojo as escadas para outras verdades. E a verdade era a angústia sem alpendres por onde entrassem os campadores. A honestidade, diante do espelho, era seca e semirrígida, com cotovelos longos e coluna mui ereta. A honestidade não cabia em qualquer quarto e sala ou repartição do cotidiano. E a honra? Ana preferia não falar de honra.

Tanta coisa de somenos brilhava nos outdoors e Ana a sentir-se imprópria. Ana, a outra. Ana, a módica. Ana, a glória desconhecida. Ana, a que viveu em si todo o desespero da espécie, a que brindou entredentes todo o ódio da raça. Uma coisa era fato, e com isso Ana abrilhantaria de bom grado o golpe de perspectiva dos vizinhos sobre a existência __ se de bom grado os vizinhos quisessem lidar com a verdade que se esconde para além dos seus canteiros de hortênsias.

Ainda assim, de fato, Ana era capaz de apostar que a existência humana estava uma polegada para além da mera fatuidade e uma polegada para aquém da autorreferente obra duma deidade ambígua. E isso era tão simples que fazia desgosto que a maioria dos vizinhos virasse o rosto para o lado. Mas, desgosto era uma constante, pensava Ana, à janela...

Afinal, transcender sem ganhar asas? Isso era o mesmo que arrancar passo e passo todas as camadas da própria sombra, era o mesmo que mentir apenas em ocasiões especiais e dosar os sorrisos de cortesia. Era o mesmo que aceitar a redução drástica da escala das ambições e das hipérboles com que se vão sedimentando na mente de um pobre coitado as crenças sobre o que diabos era a vida.

Aceitar uma galáxia colossal e um grão de areia como medidas para a clarividência humana. Aceitar que fora doces, horas de recreio e certas inocências, quase nada toca aos olhos dos meninos. Aceitar que fora entorpecentes, sexo e boas doses de autoengano, quase nada resta aos olhos dos homens feitos. Aceitar, por sinonímia, admitir, por supuesto, que a vida era, em si, coisa de somenos.


Receber no peito, com agrado, o golpe aterrador duma verdade tão fria. Transcender tinha muito pouco de ascender no final das contas, transcender era, em verdade, deixar-se ultrapassar pelo som e pela fúria do mundo, era ficar entre os musgos, era contar as gotas da chuva da manhã, era regar os não-me-deixes, era pisar a terra como quem fosse feito de terra e não de nuvens. 

Transcender, Ana assentia ainda à janela, era, antes de qualquer subir-aos-céus, o simples dissolver-se num arroio do brejo mais remoto, sob a úmida orgia de estrelas e vaga-lumes.




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