O Algodão das Nuvens

01:23 Lauana Buana Fidêncio 0 Comments




Eu vivo pela morte. Vivo de me dobrar sobre o lago: 
"E se eu morresse amanhã"?
Posso muito bem morrer amanhã... todos, desde que vivos, ainda podem morrer amanhã...
Que venha a morte, a grande cadela. Posto que, se tendo eu exaurido em pira o algodão das nuvens, não a temo. Pois que venha em ápice ou em reta.

Não é à morte que deveriam temer os cem bilhões de neurônios que queimam dentro do teu crânio covarde! Tantos centímetros cúbicos de carne e tão pouca coragem!
Não é a morte que crava a maioria das rugas nas faces, nem a morte que dobra a maioria dos joelhos, não é a morte que fecha, sob portas aferrolhadas por dentro, esses seus ressentimentos comezinhos, não é a morte que fecha as tuas janelas! Não é a morte que apodrece as tuas entranhas sem brilho.

O teu crime é a propensão aos crimes mesquinhos... o calado e amargo cozinhar das mágoas de pouca monta, o eterno autoeximir-se das responsabilidades.

Lembrem-se do santo Gregório, meus caros:
“Pequei Senhor, mas não porque hei pecado...”

Sim, eu me rendo aos infernos, assim como todos os honestos! Eu assumo que mereço: deem-me às serpentes e às danações mirabolantes descritas pelo florentino! 
O pecado maior da raça é a arrogância de tentar fugir aos pecados, pecadilhos, pecados de mãos cheias.

Pois, ao fim e ao cabo, nada pior que esses teus crimes de soslaio. Pois, e o que dizer desses teus crimes de silêncio, desses de inveja e desses de covardia? 
Teus ossos não valem os vermes que povoarão a minha sombra.

Ah, a hipocrisia dos puros! A propensão sádica dos inocentes! Todos os bons zeladores dos bons costumes e dos trejeitos desesperadamente brancos! Pois saibam que o amarelecer do tempo corroí o branco do mundo, e que nem o branco dos teus olhos escapará ao ocre da infâmia e da culpa. Nada escapa da ferrugem e do sangue, nada escapa do crime e esse é um dos poucos aforismo da raça!

Não tema a morte, tema o tédio e o ressentimento que transcende dos teus poros! 
Ali, veja..., um golpe de vista ao cair das folhas secas, e um trago ao diabo! 
Não tema a morte, tema a mágoa e o corte e aquela flor guardada dentro de um livro!
Não tema a morte, tema o silêncio covarde e o nunca ter ousado “o salto no escuro”. 
Não tema a morte, tema que tuas mãos apodreçam antes que toquem o âmago de uma glória, por mais ínfima e delicada que ela talvez seja.





0 comentários: