Manual do Pequeno Monstro IV

00:54 Lauana Buana Fidêncio 0 Comments




Doralice, entre um trago e outro, concluía como quem soluçava: 
Não queria mais aqueles dedos sujos tocando as delicadezas da sua nuca, não queria mais aquele suspiro ao pé do ouvido, não queria mais aquela voz a meter-se lhe pelos seus escuros em chamado, pois quem chamava era sempre o diabo.

Doralice não queria mais nada. Doralice não queria mais nenhuma existência que lhe fosse exterior. Doralice queria era somente a si mesma. Ela só queria em si.

Queria o silêncio e a ordem dos predicados perfeitos, ainda que predicados fossem apenas nuvens! Queria a saciedade dos pecadores, aquela que causava medo e náuseas e medo ainda no fim, quando estivesse sozinha e de mãos rotas! 

Doralice queria rochas ígneas e poalha, o vago das menores culpas, o esgar das estrelas da madrugada: ah, Doralice! Toda pequena supernova se consumia em culpas úmidas, tremeluzia à hora do angelus, amena e insignificante...

Todavia, Doralice queria algo que se quebrasse entre seus dedos, queria partir o cristal duma existência sob a fúria retesada do seu desespero fracionado em falanges delgadas. Queria era o impronunciável delito que era a saciedade, obviamente!

E queria que tal turbilhão viesse coroado por um riso daqueles que não ousaríamos para o bem das aparências, e queria era que tal danação brilhasse irrefreável naqueles seus olhos que enfim estariam desmedidos das cadeias de suas lentes.








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