Das Danações de Doralice

03:02 Lauana Buana Fidêncio 0 Comments


Doralice e a Roda da Rotina


Doralice sonhava dosséis e leito de estrelas! Todavia, apenas recebia esparsas encoxadas no aperto aviltante do lotação agora desfeito de sua glória proletária dos bons tempos, agora designado sob a alcunha grosseira e pobre de busão.

Doralice sentia uma náusea ressentida daquela realidade! Qual a branca ovelha prometida à glória de um alto sacrifício e em seguida esquecida num canto qualquer ao dissabor da própria sina e sorte.

Doralice era tão flébil, tão moça-donzela-desprotegida-no-deserto que bem por isso se fazia quase que, por supuesto, impenetrável!
Doralice era um encouraçado a se afogar sob o peso das próprias asas.

Doralice: a minha tola codorna de chumbo.  




As Vírgulas de Doralice


O modo como Doralice usava suas vírgulas me fazia pensar em ânsias sadomasoquistas e educação cristã! Aquele incandescente caos que brotava nela ia se conformando ao sufocamento engaiolado dos relicários. 

Nada transbordava nela, tudo se confrangia até caber dentro de um punho fechado, dentro de uma boca amordaçada. E era quase ofensivo o modo delicado com que aquela moça se desdobrava em pretéritos bem polidos. 

E em mim rebuliçava um mais não poder com aquele grito sufocado que ela era. Fervia em mim um desgosto irascível diante dos infindáveis mantos e mordaças com os quais se cobria Doralice.

Eu até podia sentir as reticências no final das suas frases claras, macias e firmes apenas o suficiente para não desmancharem em fragilidade explosiva e exposta... como carne aberta a golpes precisos de faca.


Agulhas Verdes



Cozia sob a luz bruxuleante das lamparinas. Costurava uns remordimentos entre aquelas rendas, deixava pender dos babados umas veleidades conspícuas, impronunciáveis até.

E era de se admirar ou espantar, isso é convosco!, o modo como sendo ainda moça-pura-de-nome-a-zelar, desmanchava-se em tramas de tão complexos pecados.

O crime parecia mesmo brotar do cerne, da carne e d’alma de qualquer jardim imaculado. Arrastando-se sibilante e hipnótico como a serpente do vício a sussurrar-lhe ao ouvido: coma pois do fruto da árvore, Doralice!

Pois crave estes delicados dentes na carne epifânica do esclarecimento e conheça pois do pecado, prove da extensão sádica e filosófica das ciências da matéria, faça de ti uma curva arma, uma cimitarra, uma agulha de rascante retórica.

Teça teu manto de pecado e culpa sob as resplandecentes luzes das avenidas. Brilhe entre a gente de espírito e entorpeça a fragilidade desta alma de ovelha sob as cambraias bem compostas da City.
Pois coma do fruto, Doralice! Afinal todos os outros comeram! 




Das Danações de Doralice




O que era aquilo que de repente lhe arrebatara da calma semi-impassível de boa-moça-quase-trinta? 


Um torvelinho, uma vertigem, um marulho, um arranhar de galhos contra a vidraça da alcova, o sublevar de todas as folhas onde secretamente Doralice ensaiara, paciente e áspera, uns arremedos bem rimados de pecado?


Uns demônios revolutearam no redemoinho que se avolumava no peito da moça, sob o rosário, sob as rendas brancas, sob a pele pálida-limpa-imaculada fazia-se agora, em prólogo, a ária que beirava a rasgar-se em canto-silêncio-crescendum-explosão-de-supernova.


Esganiçado um soluço caiu no silêncio escuro daquelas paredes e daí perdeu-se no chão do esquecimento. E dali a um átimo perderam-se bem mais que soluços ou delicados pudores. E dali a pouco, Doralice, a nossa ovelha, rasgou-se em cascos, pelos e escamas: fez-se vadia impura feito Eva. Deitou à terra escapulários e quimeras e aos céus o primeiro dos teus risos de escánio.


Doralice, a impudica, impoluta-vadia-de-fresco-dissoluta, Doralice, a puta de sete véus, Doralice, a cadela endiabrada, Doralice, a Dama pé de cabra, que nesse ínterim traga e pragueja como qualquer um de nós!

Doralice enfim tornou-se o oposto de si mesma, mas, até onde sabemos, o mundo não se acabou, o espírito de Deus não voltou a andar sobre as águas, nem uma punição divina exemplar se abateu sobre ela ou seus pequenos pecados de ovelha!



Em Meio Sorriso de Desencanto, Doralice!


Empertigou-se, mexeu desconfortavelmente na cadeira... era tão difícil ter algo de relevante e bem sonante para dizer! Deus! Ela era só uma pessoa, e as pessoas são insuportavelmente irrelevantes, principalmente nos dias de semana.

E de onde vinha a implícita obrigação de ser sempre interessante? Poucas foram as vezes em que o mundo mostrou-se relevante, em réplica.

Mais das vezes ela ficou de cara para a parede, esperando uma resposta, uma solução intrincada e com uma boa carga de moral de final de contos de fadas incluída!

Até que desistiu, abdicou e tomou para si um leve manto de silêncio. Afinal, desde o começo do mundo que o silêncio cai bem aos homens, e às mulheres, bem mais, por supuesto!

De resto, o mundo levava dela não mais que um leve olhar de troça e meio sorriso de desencanto, nada mais do que isso dispensava agora ao oco tedioso do mundo.

Tudo bem, tudo ficará bem Doralice, lembre-se apenas de fingir entender tudo que se passa ao seu redor enquanto respira.



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