Da Ira e Outros Motivos que me Movem II

13:45 Lauana Buana Fidêncio 1 Comments




Creio que uma das coisas mais enervantes e burras desse novo Século seja o discurso do Politicamente Correto, o discursinho de frente de vitrine que aparentemente vende o Respeito a todos, e isso naquele  sentido que só nessa terra abandonada pelo bom senso, entendemos que seja o tal de Respeito.

E é por esses e outros déficits intelectuais e discursivos que eu, uma pobre rapariga sem partidos, sem religião, sem baixa autoestima identitária, sem muita ideologia ou causa a defender, tenho que, de uma hora para outra, me defender de dedos em riste a apontar a minha vilania e falta de "respeito", e sou obrigada a ver que nos olhos os meus acusadores sempre trazem aquele:

"... mas como é que você, justo você tão esclarecida, pode dizer uma coisa dessas, como pode concordar com tal absurdo de opinião, como pode compactuar com tal lixo, como pode concordar com tais absurdos, você está me decepcionando profundamente etc..."

E é aí que um grande cansaço e falta de perspectiva me invadem... 

Estou cansada das gentes que vendem bons peixes, estou cansada da defesa aos índios, às minorias, da comoção por cães abandonados, do horror panfletário que se arma contra o cigarro e contra os maus hábitos, dos ataques a falta de domínio do Português, do nacionalismo sazonal que precede e acompanha o calendário do futebol, da contumaz necessidade de aplainar os monturos das nossas diferenças e conflitos com o grande rolo compressor inerente ao típico Discurso de Campanha Bem Intencionada.

Estou cansada principalmente porque esses achaques discursivos não passam disso, nesse nosso país onde as ações dos cidadãos estão claramente divididas entre a versão "para inglês ver" que usa em público e aquela real, amesquinhada, retrógrada, classista, autorreferente defesa dos mesquinhos interesses de classe, do nada Politicamente Correto, no sentido real da coisa, que é o desesperado ataque ao coletivo na medida em que o agir "todos contra todos" leva sempre ao grito de "o meu primeiro".

Costumo, vez ou outra me lembrar da minha fixação por provérbios, máximas e anexins, e nesses momentos recordo invariavelmente dois que sempre se fazem oportunos, segundo penso; o primeiro, obviamente que não me recordo das autorias ou da exatidão dos termos, mas enfim, o primeiro era mais ou menos o seguinte: "A tolerância não é inerente ao homem, o primeiro impulso de todo ser humano é sempre matar quem discorda dele."
Já o segundo, de algum filósofo de quem deveria certamente recordar, era o seguinte: "Defenderei até o fim o direito de discordares de mim."

Creio que essas duas máximas me são caras na medida em que traduzem, primeiro a franqueza de admitir que somos sempre vis, que não temos a alma plena de amor e tolerância por tudo e por todos, que somos cães danados voltados para o nosso próprio umbigo e isso é uma das poucas verdades sobre a raça.

Todavia, e a contrapelo, a segunda, que particularmente me agrada, apesar de ser meio romântica, vem afirmar uma postura democraticamente saudável e honesta. Uma atitude e uma posição na polis que me parecem, apesar do romantismo e da capacidade de incitar o ódio e a incompreensão que acarretam, as mais desejáveis, maduras e corajosas, sobretudo nesses nossos tempos de muita consciência e bem agir virtual e de muito conservadorismo e recrudescimento na esfera tangível, leia-se efetivamente real, dos embates ideológicos/políticos.

E eu cá a perder tempo com coisas tão sérias... creio que enquanto divagava aqui, morreram uns cinquenta cães abandonados, desapareceram umas tantas etnias de índios desconhecidos, um cem número de adolescentes atacou medonhamente a última Flor do Lácio, o aquecimento Global foi desmentido umas três vezes e defendido outras tantas, as minorias foram atacadas nos seus direitos pelo menos umas vinte vezes, alguém citou algum trecho de algum "texto" do Carpinejar, como isso também não fosse um crime ao bom gosto, e algumas dezenas de espécies de rãs da Amazônia desapareceram definitivamente da terra em virtude dos apocalipses dos nossos tempos.

E sim, estou realmente cansada de tudo, de tudo isso!!!





1 comentários:

Velharia disse...

Que moleza? Come sopa de minhoca... Muito boa obra, parabéns. cadê o livro? O seu.