Da Ira e Outros Motivos que me Movem

13:18 Lauana Buana Fidêncio 2 Comments





Da séria das coisas que me enervam neste mundinho de meu deus, têm umas que são deveras sopitantes, capazes de ferverem com meus índices de ódio pela realidade, de fuderem com o meu delicado estado de espírito.

Ora, quais sejam, por exemplo, tratemos de um caso específico, a mania de galicismos de certas gentes com quem esbarro na city.

Creio que devam ter argumentos mais racionais e menos enervados, de gente que antrológica e cientificamente tratou dessa questão. Creio que é sempre bom lembrar a verve irônica-bem-humorada-panfletária de uns moços de outrora, que lá pelos começos do Século passado tentaram incutir nesses tacanhos de acá, um pouco de amor próprio verde-amarelo, pau-brasilesco, e por que não, nacionalista.

Mas, parece que nada existe capaz de livrar os réprobos dessa terra na mania endógena de baixa-autoestima de raça ( e raça no sentido pejorativo do termo, que é assim que essa gente enxerga a si e aos seus concidadãos).

E é assim que eu, uma pobre rapariga com umas leves convicções e uma grande propensão conciliatória, no que tange a questões genéricas, tenho que tropeçar em pedaços de carne que alardeiam uma superioridade de contato, um plus-ultra de dignidade, um je ne sais quoi de finesse, uma mantilha de cultura boa e secularizada, ou algo que o valha...

Pois, meus caros colegas do juri, apenas eu que acho de mal gosto, praticamente intolerável, que um cidadão brasileiro esclarecido e adulto saia por aí a vomitar croissants e salamaleques commentallezvous pelos círculos das gentes estudadas e bem-pensantes da city?

Ou alguém ainda pode considerar, neste novo Século que desponta, como tolerável tamanha falta de autopercepção, tamanha indignidade de entendimento dos reais porquês desse mundo?

Serei eu da linhagem dos Policarpos, apenas por achar deseducado e vil um ser humano passadista, novo-rico e arrivista intelectual utilizar de qualquer caída de lenço, de qualquer momento de protocolo para tomar para si a frente do palco e despejar sobre inocentes aquelas sandices de uma mentalidade velha, superada, demodé, contraditória e ridícula... será que um tour pela Champs-Élysées é mesmo motivo para todos esses volteios faraônicos au tour de soi-même?

Pois, uma coisa sei eu e posso afirmar, não há parfum capaz de lavar nossas peles bronzeadas de seus olores regionais, não há foie gras que nos livrará de nós mesmos... e por que haveria?
Assim fosse e muitos de nós seríamos russos devido a tanta vodka que se tem que engolir neste mundo, ou paraguaios, devido a tanto contrabando que contrabandeamos para sobreviver nesta terra em que se plantando tudo dá, mas onde, todavia nunca vingou uma boa safra de bom senso autorreflexivo.

Indigno é quem trai a si mesmo ao arautear-se melhor que seus conterrâneos por bagatelas, quinquilharias, permutas, intercâmbios miseráveis de puro apuro em terras frias de gente fria e mentalidade passadista. Ignorante é aquele que tendo, durante toda a vida, se debruçado sobre livros ou afirmando que assim o fez, venha depois olhar do alto dos pequenos e amesquinhados palanques dos olhos para nós, os de debaixo, como se fosse lá uma grande sumidade intelectual e humana apenas porque conjuga uns verbos no passé composé e visitou igrejas frias e cemitérios cheio de mortos miseráveis como todos os mortos de todos os lugares e viu a Monaliza no Louvre apenas para constatar que aquela droga de quadro é do tamanho de um selo.

Não defendo nossa realidade brasileira, regional, local como sendo grande coisa, estamos presos em um grande charco, seja de qualquer perspectiva que se olhe para essa terra... todavia, num é assim em toda parte?
Não é este nosso mundo um único e mesmo lodaçal de indignidades e boçalidades sem fim?

Isso o afirmo, e isso creio que é a realidade, isso posso fundamentar com argumentos bem articulados e estatísticas irrefutáveis, e isso tem lá suas modalizações. Mas, coisas há que não se modalizam, o pertencimento a um dado rincão deveria ser uma das maiores fontes de reflexão para um ser humano que se julga esclarecido.

E se não o é, o problema, afirmo eu, não está somente nessa nossa realidadezinha de povinho brasileiro, está nos bem frequentados cidadãos afrancesados que deslizam por minha terra a reclamar do calor, das gentes de acá, dos modos, da comida e da falta de cultura do povinho, da falta de bulevares, da ausência de Molins Rouges, da falta que fazem os franceses por aqui e por aí em uma infinda gradação de arrebitamentos de narizes e comentários en français com sotaque caipira.

2 comentários:

Velharia disse...

Amadurecendo, gosto de ver isso. É bom pra quando eu escrever sua biografia.

Kamikaze Kiwi disse...

Háaa... biografia? Sério... mas, te falar uma coisa, eu inventarei tudo, hi hi hi...