Coisa de somenos - Parte III

11:29 Lauana Buana Fidêncio 0 Comments

Houve um tempo em que eu jurava que sabia exatamente o que faria. Hoje tenho medo de sair à rua... Mas não me agrada falar de medos, medos são secretos. Secretos e variados, afinal não é tudo o mesmo medo. O medo de falar, por exemplo: um dia vi seus calcanhares, não disse nada e fui pra casa escrever poemas de amor...

__ Mas é que aquela tua bunda, a visse Homero e tê-la-ia cantado também. Sim, a tua bunda merecia bem um canto da Odisséia. Bunda é uma palavra de origem africana, eu acho....

__ “Bunda, molares, plenilúnio...” nisso pretendia um verso a rapariga, o meu eu-lírico, a minha voragem enfim...

E há o medo de olhar para o espelho e não ver nada além da carne esticada em rosto... E há o medo de ir e ficar, o vácuo no tempo e espaço: meu lugar de não ter lugar no mundo. E há o medo de sucumbir àqueles maus modos cultivados: na ponta da língua dez modos de ser desbocadamente cruel sem o menor esforço, na ponta da língua dez considerações muito relevantes sobre os atuais paradigmas da literatura brasileira sem o menor esforço. E há o medo de tocar nos reais motivos, tanto dos atuais paradigmas quanto dos meus maus modos...

__ O Olhapim entrou pela janela e me comeu... Acordei tarde demais, virei o lanche da lenda.

O medo da cidade vem de saber exatamente do que ela é feita: o beco da glória grita em chamado... o medo de não sobreviver à city é o que grita desfibriladamente em meu fraco coração! Como um poeta sobrevive à cidade? Desistindo das delicadezas da classe? Entregando-se aos roçagantes desejos insuflados pelos outdoors?

__ O medo, em verdade, era o de nunca ser tão feliz quanto na propaganda da coca-cola... diante de tal confissão o meu eu-lírico sentiu-se bulinado em seus brios...

O medo é o de não ser tão ingênua quanto à mocinha da novela, nem tão virgem quanto a moça de família... ao passo que há o medo de ser tão ingênua quanto a mocinha da novela, e tão virgem quanto a moça de família: os mandamentos de nossa tábua eram de se declamar baixinho na noite. Eram de se cumprir nos becos da city. Eram de se lambuzar e de se rir imodestamente. Eram de se desmedir até as últimas conseqüências. Eram de nada... eram um decifrável no ato, olhando nos olhos veríeis tudo que se há para ver. Mas olhos haviam que arrenegavam e desapercebiam em descaso, em esperança talvez...

__ O preço? Bem..., o nosso, era módico.

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