Coisa de somenos - Parte II

11:28 Lauana Buana Fidêncio 0 Comments

Não sei bem aonde vão às divagações dos pares, mas eu, eu por mim, às vezes queria escrever como quem salva vidas, ou bem como quem as tira: a minha pena incisivamente desenhando rasgos, substanciais, profundos, oceânicos cortes: a pena como bisturi, pena de dizimações, pena de calcinantes deleites, porque, às vezes, calcinar é tudo que resta como salvação...


Às vezes queria escrever como quem espanta o tédio...: a pena espargindo cores de aquarela, a pena como festa, como opereta. Às vezes queria escrever como quem rouba aos ricos para dar aos pobres: a pena como flecha. Às vezes queria escrever era como quem entende de filologia: a pena, a pena proclítica, apocopada, séria, de óculos e bigodes ruminando “os usos idiomáticos de composição, justaposição e aglutinação”.

Às vezes queria escrever como quem faz música: a pena afinadíssima ditando verdades para flauta doce. Às vezes queria escrever como quem se permite certos deleites: a pena como vício: 50/80 era a proporção dos gastos, era o que se queimava numa tarde de terça-feira! com a tolerância atuando, três pontos percentuais para mais, não para menos...

Às vezes queria escrever como um tirano: a pena soberana decidindo sobre todos os destinos do reino. A pena como marca de minha infensa superioridade, como se eu houvesse recebido um direito divino das mimosas mãos de trezentas gerações de nobres. Como se tivesse recebido a espada, a marca enfim, e agora me coubesse lutar impavidamente contra aquele imenso e branco silêncio...

Não sei... mas, às vezes, sinto que, se num escrevo, acabo explodindo como uma estrela explode: autoconsumida... todavia, às vezes me nego e fujo. Sabe..., às vezes sinto ainda que escrever seria de minha parte uma concessão hipócrita ao mundo. Que seria tapar o sol com a peneira grossa, ou estender uma ponte sobre a imensurável extensão do abismo. E tanto esforço pra quê? Para dizer que vai tudo bem aqui entre nós? Para dizer versos gozosos para a assistência? Às vezes simplesmente não posso tangenciar a voragem!

__ E aquela abrangente imagem que tudo diga ali, ali onde tudo cala, onde a deixei que não encontro? Algo simples e claro como uma abolição de preceitos milenares, algo assim como caminhar descalço sobre a areia? Algo que fosse minimalista e franco como o branco sobre o fundo branco?

__ Organza! Organza! Organza...

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