Coisa de somenos - Parte I

11:27 Lauana Buana Fidêncio 0 Comments

__“Organza”!!

Eis uma palavra encantadora...

__ “Organza”!

Nos últimos dias só penso nessa palavra! E o pior é que não lembro bem o que significa, acho que é um tipo de tecido delicado..., mas queria que fosse algo mais sutil e cálido: Organza! Tenho medo de ir averiguar no Aurélio, uma decepção nesses casos pode ser cruel...

__ “Organza”, “Organza”, “Organza”!!

Será que esse tipo tolo de fixação me torna realmente uma escritora ou diz apenas que tenho que tomar mais ar puro? Nunca pensei em ser escritora e eis que um dia me pego escrevendo justamente isto numa frase...

__ Ai ai... é muita organza meu Deus!

E por falar nisso, ser escritor traz muitos dissabores! Um dia alguém me apresentou numa roda como sendo a escritora: fiquei constrangida... como se tivesse instantaneamente que dar mostras de que eu realmente o era... mas que tipo de prova, que tipo de gesto, que tipo de comentário me corroborava, me garantia como escritora?... retirei-me embaraçada e fui para casa pensativa...

Escritor? Escritor foi aquele... aquele que perfilando aliterações esperou se eximir de confessar que a dor devorara seus ternos sorrisos... diante de cada porta um bem freqüente olheiro, diante daqueles olhos o escritor se nos dava apenas em suave ironia: a ironia como arma e como entrega...

__ E houve alguém que escandisse no riso do artífice a altissonante nota de um choro?

A pergunta em suspenso, os lábios tentando segurar a manada dos soluços, a explosão de desespero esbatendo nos anteparos internos do peito... As duas mãos nos bolsos, o olhar nos pés de passos curtos e a tonitruante falta de um cigarro: acaso passastes por ele ainda hoje na rua...

Sim, ele... Ele, que além de tudo era poeta!, ele com allstar furado e calo no mindinho, ele com um mísero cigarro no maço amarrotado e o dia inteiro pela frente, ele, um miserável que ia vivendo “um dia de cada vez”, que ia parindo o poema perfeito no aperto do ônibus e esquecendo-o no primeiro esbarrão... Sim, ele: um pobre e lírico que juntava os trocados para pagar o café que lhe serviria como almoço, ele que, em plena avenida, se via como um dos pastores de Virgílio...

Ele, ele, ele: ele que era meu eu-lírico de mulherzinha, ele o frágil e, por que não dizer, afrescalhado! Ele: o meu eu mais crispado... o meu eu que chorava nos banheiros públicos, que me imaginava tísica, que me sabia pernóstica. Meu eu amargurado e sem comunhão, meu eu banido das comunidades de poetas por ofender a moral, a religião, a pátria e o amor cristão... meu eu mais descasoado de mim: é que ele, o meu eu-lírico, quase nunca tomava banho, quase nunca sorria... é que ele, o meu eu mais intelectualizado, cafeínico e pessimista, falava latim e lia Sêneca e nunca ganharia o suficiente para viver per si...

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