Eva fumava Marlboro I

23:42 Lauana Buana Fidêncio 2 Comments


            Quase sempre é de se lamentar a falta de ignorância com que gente como a gente se depara olhando o mundo. Afinal deixar de ser ignorante é constatar que a medida de ciência que se tem do mundo equivale à medida inversa de felicidade, e aí, justamente nesta hora perceber que não se pode mais simplesmente voltar atrás, não se pode mais desfazer os passos e retornar para aquele confortável e limitado éden. Pode-se apenas ir adiante e adiante, trago a trago, artigo a artigo, resenha a resenha agravar-se num abismo de gestos crispados, tomar posse de uma plácida e resignada amargura, pode-se quando muito achincalhar a própria miséria com adjetivos tão obscuros e de domínios tão específicos quanto às gírias da boca-do-lixo, pode-se no máximo um sonetilho contra uma tal imensa voragem.

            [E é assim, vilipendiada e espúria, que uma Eva resta com nada mais que um gesto de coragem e deboche no canto da boca, de resto é certo que ela amargará per secula seculorem o peso de sua ingente e inocente cobiça... e eis como a grande dádiva, e eis como o desejado pomo apodrece na nossa boca enquanto ainda o degustamos. E é aqui que, se generalizamos, vemos que o mundo se divide entre três grandes grupos: afinal existem aqueles que cospem disfarçadamente, existem aqueles que resolutamente engolem e ainda, o mais acanalhado dos três, aquele a que pertencem os que não sabem se cospem ou engolem e que ficam atoleimados implorando, de boca cheia, por uma indicação daquela que seria a melhor conduta num tal caso.]

Mas eis que falo de ignorância num sentido lato, latíssimo, e falo daquela ignorância de ignorar que há germes em tudo, de ignorar que o mundo caminha sempre na direção contrária do bem comum e da plenitude humana, de ignorar que Deus está sempre muito muito ocupado, se não inelutavelmente ausente e morto, se não irremediavelmente preso num teto de igreja, de ignorar os verdadeiros motivos escondidos sob os aparentes e brilhantes reclames, de ignorar que os olhares falam de coisas diferentes daquelas que as bocas quase juram, de ignorar que palavras sempre se organizam em função de um intento quase sempre parcialíssimo, e para não dizer que sempre condenável...
Falo da benfazeja capacidade de ignorar que atrás de cada porta há de haver ao menos um bem freqüente olheiro, um pulha, um ladrão, um assassino, um perigo inqualificável, um tiburone, um anão fumando cachimbo, uma velha cigana rogando pragas de infelicidade no amor, ou pior, um maçante compromisso das três da tarde, um documento a protocolar em três vias, uma saudação de apreço a se declinar em mensura, um relógio cuspindo minutos aflitivos, um dever a se cumprir meta por meta do cronograma com a impecabilidade do intelectual de gabinete, uma frase a se burilar na carta tendo sempre em vista a quem se dirige nossa afamada acuidade ou ainda um horário no dentista... de ignorar, por exemplo, que pelos corredores sempre espreita aquele aguerrido ataque a nossa hombridade, ignorar que uma cruel e inelutável verdade sempre se enrodilha em nossos desavisados pés pronta a revelar-se naquele momento de nossa mais descuidada fragilidade.
E é por falar de ignorância que lamento profundamente o fato de ter um dia percebido que nem sempre os meus heróis do cinema fumavam de verdade... sim, existem cigarros cenográficos que são infinitamente ridículos, e disso decorre que existem cenas quase insuportáveis para um fumante, cenas em que uma personagem gesticula e dialoga descuidadamente ou dirige e fala ao celular ou segura uma arma e arma uma bomba, cenas enfim, que extrapolam as possibilidades de ação executáveis com segurança por quem de fato segura entre os dedos uma brasa fremente e incômoda.

[E por que diabos apenas os vilões e as raparigas má intencionadas é que ainda fumam nas películas? Afinal nós fumante não nos identificamos exclusivamente com gangsters, assassinos, prostitutas, junkies boçais ou com quaisquer dessas personagens que ainda fumam nos filmes dos nossos tempos.]    

Nós fumantes sabemos que não se deixa a fumaça brincando perto do rosto, não se deixa aquela fumaça densa e quente atingir os olhos porque isso dói, sabemos que fumar exige atenção porque o cigarro possui uma miríade de anéis de pólvora que tornam sua queima rápida e quase de grave risco. E ainda há para nossa maior tortura, como esquecer, aquelas incomodas cenas em que simplesmente alguém fuma o mesmo cigarro por um tempo que excede infinitamente a duração de qualquer cigarro.
E sem falar que fumar em decúbito é uma arte arriscadíssima...
E sem falar que existe a específica e benfazeja ação tragar que afinal ninguém há de fingir bem unicamente porque não é possível fingir um trago, pois a fumaça se suga e se quase engole, mas se envia, por uma manobra difícil de descrever, como se fosse oxigênio ao desatento pulmão onde ela chegará quente e quente e de onde  depois de alguns segundos deverá evadir-se evanescentemente pela garganta ressecada do fumante: esse processo todo quase nunca é um ato agradável. É um exercício de dor engolir aquele fogo todo.
E, ai de mim aqui ter de admitir, como quem em verdade não ignora, que essa dor todavia haverá de doer infinitamente menos que a vida à seco, que a vida sem um trago que nos eximisse de um ataque de nervos a cada esquina. E ai de mim, tenho de admitir, que se talvez, ainda ignorasse esta medular verdade, hoje subiria escadas sem tantos estertores, e quiçá respiraria bem durante o sono e quiçá encontraria noutros subterfúgios a paz que se me invade no ato incandescente de acender aquele dileto cigarro de filtro branco... e eis aqui outra oportuna demonstração de nossa punjente designorância, eis aqui a manifestação de nossa mísera e concisamente consciente acuidade, eis enfim o nosso triste modo de não ignorar que ninguém jamais foge das fugas quando se trata deste famigerado verbo de carne, deste confuso e melífluo viver.
           
[Mas, convenhamos, se ignorássemos certas coisas todos subiríamos melhor as escadas, todos respiraríamos melhor durante o sono e todos ainda pararíamos para olhar as estrelas...]

Um soneto rimando como ganho justamente uma perda? Um riso tênue de quem viu e tornou-se irremediavelmente perdido do riso apenas por ter visto? Um perde-se no ato de achar-se no vasto vasto do mundo? No fim um réquiem... um canto triste de quem se vê de repente sepultando a si mesmo no fundo do abismo ou num gesto resoluto de levar a mão ao bolso à cata do isqueiro enquanto aceita que na vida a gente no fim se morre à revelia daquela primeva e franca inocência.  

2 comentários:

Tetê disse...

Não sou boa em fazer comentários. Mas serei suscinta: gostei, gostei e concordo em gênero, número e grau. ;)

Velharia disse...

Não sou bom em fazer comentarios. Mas serei frio: Seus leitores sabem que você é homem?!