O Caso do Mosquito (parte I)

21:54 Lauana Buana Fidêncio 1 Comments

__ Matei!! Matei o mosquito, porra!! __ foi o que sai gritando do quarto.

Lá da rua os vizinhos ouviram e acorreram em balbúrdia e alarido, logo toda a rua burburinhava, as crianças corriam gritando, as perguntas e exclamações multiplicavam...

__ Matou? Mas matou como?

__ Uai, na mão mesmo... pancada certeira!

Os manos lá do bar da esquina brindaram a minha pessoa! Tomei conhaque de graça, alguém até me ofereceu um cachimbo, a confusão só aumentava... O Tião da frutaria me perguntou preocupado se eu não temia vingança, respondi que matava era a família inteira se tivesse chance, quiçá exterminava a raça. Absurdamente berraram em êxtase, estenderam-me mãos comovidas, me aplaudiram a desabrida coragem.

Mas eis que de repente o tático móvel estacionou macio rente à calçada do Bar da Beira na hora do pagode em minha homenagem, alguém ligara pro Distrito: denúncia anônima, alguém que queria entregar um serviço meu, coisa feia: o assassinato de Deivid Thierri da Silva, vulgo, Mosquito, traficante, 23 anos, desempregado, torcedor fanático do Fluminense de Araguari.

__ E foi só então que dei de entender o engano. Era um pouco tarde pra explicar o mal entendido, levaram-me algemada pro D. P.

Enquanto o carro solavancava e sirenava pelas ruas buraquentas da cidade eu sorria aturdida diante do absurdo, afinal, como diabos podiam me levar presa por matar um simples mosquito, um aedis aegypti filho da puta. Quando ao trafica que diabos tinha eu que ver com a morte do cara, será que a polícia era mesmo assim tão burra? Caralho!

A imprensa radiofônica acorreu em peso, todos os três grandes nomes do jornalismo radio-AMesco da cidade queriam me entrevistar, todos queriam saber dos motivos, dos detalhes sórdidos. E eu, eu sorria besta entre os safanões dos guardas...

__ Percebi-me pois no conto, naquela história do alfaiate que se ferra por causa de um simples mal entendido...

No corró, que era mais ou menos como uma sala de espera do inferno, uma ante-sala da desgraça, a vívida essência aromática de suores, urina e cigarros dava mostras inegáveis de que a realidade fede. Alguém, uma estudante de design de moda presa para averiguações por causa duma dessas histórias de posse de drogas, de delicada que era, vomitou bem ao lado de onde eu estava.

__ Suspirei lamentosa, afinal seria mais fácil enfrentar aquele gigante da história do alfaiate, seria mais fácil mata-lo com as minhas mãozinhas delicadas do que enfrentar o burocrático e lento processo que é para qualquer cidadão provar que “fucinho de porco não era tomada”.

Sorri desdenhosamente frente à estupidez quase mágica, quase de histórias de “era uma vez” à que nossos frágeis destinos estavam submetidos. Todavia duas prostitutas que estavam ali de frente não levaram meu sorriso pelo transcendente que tinha e de repente estávamos em encaniçado bate-boca. Confesso que logo que os argumentos e os palavrões mais comuns se esgotaram nas nossas cabeças, partimos para o clássico ataque a nossa mútua indignidade:

__ Obviamente, chamei-as de putas safadas. E obviamente elas se riram todas de mim quando me souberam professora de sintaxe. Argumentaram, apresentaram exemplos, números de rendimentos, arremataram sentenciosamente dizendo que eram extremamente mais bem sucedidas que euzinha, a professorinha. E riram, riram até que se cansaram e se voltaram para si mesmas ainda mais satisfeitas e orgulhosas de serem as “muié da rua”.

Engoli em seco a humilhação... até tentei revidar, todavia, elas tinham muitos e substanciais argumentos. Calei-me... resignei-me no meu canto a matutar que se estivéssemos na década de 1950 seria eu a ter o direito pleno e inquestionável de humilhá-las! Sim, afinal, naquele tempo a professorinha aqui seria era das muito dignas, das bem respeitadas. Ainda que presa numa delegacia sob a acusação de assassinato, pois pois.

__ Mas não havia máquina do tempo que nos vomitasse todas na década de 1950.

(...)

1 comentários:

Velharia disse...

Pelo Amor de Deus! Não deixa esse texto terminar aí não dá prosseguimento, mantem os personagens mas troca eles de cenario. faz um livro disssosososos!!!!!!!!!!!!!!