Chauvinismo de Geração, ou da dor nos tempos que correm

21:46 Lauana Buana Fidêncio 1 Comments

São duas da tarde, a minha geração dá a bunda e fuma crack nas praças da City... São duas da tarde, a minha geração se insinua bastante madura pra idade que tem e demonstra que a sua acuidade acadêmica é deveras promissora... e nada disso parece interferir na placidez com que os carros se sucedem na voragem da avenida.
Enquanto o teto de nosso pequeno mundinho desaba calmamente a nossa vida escorre. Não temos nenhuma segurança, nenhuma promessa de futuro __ será que isso pode ser mensurado pelos nossos pais? Será que é possível fazer sentir que para nós é tudo tão abruto e sem sentido que o melhor seria calar e rezar __ ainda que calar e rezar esteja acima de nossas possibilidades auto-irônicas... Será que consigo explicar, sem que pareça recurso de escrita, que tenho cada vez menos motivos para insistir na idéia de escrever?
Tenho todavia, que falar de um cara que morreu... sim, morreu ainda que fosse um bom rapaz, ainda que fosse jovem, ainda que fosse meu amigo...
__ Mas me diz uma coisa, você o conhecia bem?
__ Em verdade não, e se fosse mensurar agora diria que passamos pouco tempo juntos. Com toda a certeza o tenho (ou tinha..., a morte ferra com meus tempos verbais) como amigo. Com certeza rimos juntos em vários momentos de puro descompromisso com a vida. Com certeza se soubéssemos que a morte espreitava teríamos sido mais graves e sisudos, teríamos nos interessado por coisas mais sérias...
Será?! Será que deveria ter sido diferente? E houve alguém que já soube que a morte estava à roda? E houve alguém que, ainda que soubesse, desejou mais que boas risadas e bons momentos à sombra de uma vasta faia?
Só sei que uma morte mata sempre mais de um... só sei que um pouco de nós também morre quando um amigo morre... só sei que escrever às vezes me faz chorar de verdade... só sei que os matizes de tristeza são infindos em nossa paleta: uma tristeza de desagregação, uma tristeza de silêncio, uma tristeza de descontinuidade, uma tristeza de absurdo, uma tristeza de morte, enfim uma tristeza que já se sabe inelutável revolta e irremissível saudade...
__ No fundo no fundo, no canto do olho espreita uma certeza de lâmina, uma frialdade medular que arrepia a nuca enquanto estamos distraidamente tentando nos distrair com banalidades: no fundo a certeza de que a morte espreita enquanto nos preocupamos com o preço das verduras e com aquele compromisso inadiável das três da tarde...
[E na minha voz sabia que havia um denso desconsolo quando eu dizia que uma morte sempre deve servir para que nos agarremos com mais veemência à vida. Mas ainda assim sei que o direi de novo e de novo, enquanto minha voz vai se aclarando: um pouco pra servir de consolo, um pouco pra me consolar também...]

1 comentários:

Velharia disse...

Cadê seu livro para eu editar?